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Letra a letra, passo a passo. Um diário de bordo que não pretende ser mais que um álbum de recordações.

Recomeços

10.07.14

O Vira do Minho


MarRib

 

 

Vira - Terra Mater

Imagem: Terra Mater, José Alberto Sardinha -Direitos de imagem e de texto respeitados e atribuídos ao autor

 

O Vira do Minho

 

Em moça, às meninas era ensinado na escola a bordarem, cozinharem, religião e moral, música, ginástica e dentro desta última disciplina a dançar. A professora entrava na aula, cumprimentava, disponha os pares, ligava o gira-discos, o gravador, o que era moda na altura e ordenava: "Mãos na cintura, atenção ao ritmo... e um, dois..."
A aula enchia-se daquela voz fina, do som alegre da concertina, de pares contentes a bailar. As batidas dos nossos pés na madeira do chão, casavam com os estalar dos dedos das mãos. Ecoavam como as vozes certas a acompanhar o refrão, cantado à desgarrada, propagando-se aos recreios, alastrando ao portão da entrada!
Eu bailava! Rodopiava. Parecia esvoaçar. De mão na anca assentada, não era na aula que eu estava, mas na Roda da Eira a girar. Ora balançava para um lado, ora para o outro, com a saia a rodar. Qual barca sobre as ondas, a chinela no lugar. 
"Meninas, vamos ao vira. Ai, que o vira é coisa boa! Eu já vi dançar o vira. Ai, às meninas de Lisboa!"

O Vira! Das mais belas danças de Portugal. Dançada, como diz a letra não só pelas meninas de Lisboa, mas pelas do mundo afora, não falantes de português, nascidas bem longe, que reconhecem nela tanta beleza e tradição! 
Aprendi-o eu orgulhosamente, como tantos(as) antes de mim. Aprenderam-no as minhas filhas, como as mais, depois delas.
Mas raro se aprende hoje isto e as muitas coisas ditas fascizantes, castradoras, desnecessárias de antigamente. Querem-se como libertárias, "pertinentes", muitas outras agora. Assaz discutíveis, relevantes e talvez descartáveis.
Menina, mulher! Ainda hoje a voltear... nas voltas do Vira, tão boas de dar!
Em moça, às meninas era ensinado na escola muita coisa. Matemática, Geometria, Ciências, Filosofia... principalmente a respeitarem-se e a respeitar.
Sou desta cepa que brota simples. Retorcida quanto baste como a videira rasteirinha, nas encostas em socalco, lindíssimas de admirar. Sou um pouco desta terra! De outras, cujos naturais vieram por aí abaixo, em Lisboa desaguar. Aqui trabalharam e ficaram. Amaram e multiplicaram, com a suas terras, na mente. Prezando constantemente algum sotaque na voz. Orgulhosos de donde vinham, levaram-nos a conhecê-las, incutindo orgulho em nós!

 

Vira do Minho

 

Meninas, vamos ao vira
Ai, que o vira é coisa boa!
Eu já vi dançar o vira
Ai, às meninas de Lisboa!
Ó vira, que vira, e torna a virar.
As voltas do vira são boas de dar. 

 

Meninas, vamos ao vira
Ai, que o vira é coisa linda!
Eu já vi dançar o vira
Ai, às meninas de Coimbra!
Ó vira, que vira, ó vira, virou.
As voltas do vira sou eu quem as dou. 

 

Meninas, vamos ao vira
Ai, que o vira é coisa bela!
Eu já vi dançar o vira
Ai, às meninas de Palmela!
Ó vira, que vira, se não viro eu.
Teu pai é meu sogro, teu amor sou eu.